Confira todos os textos da edição #323
- A demora do livro, a demora do idioma, por Augusto Darde
- O rock gaúcho – Parte V, por Arthur de Faria
- Um encontro fugaz entre o ser e o estar, por Horacio Dottori
- O que ainda precisamos ensinar, por Kétina Timboni
- Da criatividade ao cuidado: aprendizados de uma vida em movimento, por Marilice Costi
- Sobre o livro “Mundo Impossível”, de Mayara Floss, por Olga Garcia Falceto
- Marina Lima em Ópera Grunkie, por Luciano Mello
- Entre o mundo e eu – Capítulo III, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso – Capítulo III, por Gonçalo Ferraz
- Porto Alegre, 1912-14: Os pinta-monos da revista Kodak, por Arnoldo Doberstein
A Folha não é Grunkie
Parte da imprensa brasileira, em especial a Folha de São Paulo, falou mal do Ópera Grunkie, da Marina Lima, lançado dia 24 de março. A questão, porém, é outra. Não se trata da qualidade do álbum da Marina, nem da falta de criatividade da Marina, nada do que foi propalado, mas, muito possivelmente, de uma falta de capacidade de ouvir e de se deparar com o novo. O Brasil se acostumou a querer mais do mesmo, repetir incansavelmente os mesmos temas, os mesmos padrões. O Brasil assumiu de vez que é cafona.
Possivelmente, quem reclamou do Ópera Grunkie em 2016 reclamaria, em 1979, do Simples como o Fogo, mas hoje o idolatra e, pasmem, essa mesma pessoa, seguindo a linha do tempo, teria um ataque de ódio em 1984 ouvindo Fullgás, depois igualmente idolatraria e em 1987 sofreria um stroke com Virgem e suas “bundinhas de fora”. Parece que ter medo do novo no Brasil é uma espécie de etiqueta, uma norma social a ser seguida, algo que no manifesto de Fullgás, 46 anos atrás, Marina e Cicero chamaram de agorafobia (medo do agora). Quem espera que venha sempre o mesmo de Marina Lima não sabe nada de Marina Lima, quem diz que Ópera Grunkie é o pior álbum de Marina não sabe que a Marina não faria o pior, nem que tentasse. É que o nível musical, artístico, técnico e composicional da Marina é muito alto, é que fazer o pior pra quem olha pra frente é uma tarefa impossível. Além disso, a Marina tem tempo, história, convivências e parcerias das melhores. Por outro lado, se não foi a Marina quem desandou, foi a alergia à novidade que o Brasil neo-evengê-pós-careta insiste em cultivar quem se organizou. A burrice musical e cultural tomou conta e não é um mérito da direita, é regra geral: faça mais do mesmo e se não puder faça silêncio.
Vamos à ópera.