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Um encontro fugaz entre o ser e o estar

Parêntese #323

A casualidade, tanto quanto, ou mais que, a causalidade, pode mudar os rumos das pessoas, da sociedade e do resto. O livro de Mlodinov O andar do bêbado permite-nos fazer tal afirmação. Durante muito tempo quis apenas tecer algumas considerações sobre relatos que me chegaram acerca de um fato ocorrido em 1579, em Lisboa. Porém, a veracidade desses relatos ficava ofuscada pelo véu do tempo e podia ter chegado totalmente deturpada até nós; ainda assim, queria escrevê-los, pois foram-me narrados ao longo dos anos por meu avô, ou por reproduções imprecisas do meu pai, já que o velho morreu quando eu tinha uns nove anos.

Fortuitamente, em julho de 2002, procurando nos sebos da rua Riachuelo o volume 15 de As Histórias da Tia Anastácia, exemplar que faltava na coleção da minha filha de O Sítio do Picapau Amarelo, deparei-me com um livro muito maltratado, de capas quase apagadas e folhas amareladas, algumas faltantes. Era o livro que flutuava na minha memória como um quebra-cabeça mal montado, cheio de lacunas, e que agora me animo a relatar.

Contava o velho Antônio que, poucos anos antes do início da Primeira Guerra Mundial, enquanto aguardava o vapor que o traria para a América, juntamente com sua esposa e quatro filhos (meu pai, de dez meses, entre eles), encontrou num sebo da cidade de Gênova um livro intitulado Em Lisboa rumo à Itália. O velho tirou cinco centavos de lira das suas minguadas economias para adquiri-lo. Lisboa seria, após Gênova, o primeiro porto em que o navio ancoraria e o último contato com terras europeias antes de empreender a travessia do Atlântico. Por que o velho Antônio, semianalfabeto, gastaria cinco centavos de lira para adquirir um livro? A resposta estava na presença furtiva dos anarquistas italianos que, na calada da noite, percorriam as praias próximas de Ancona para falar com os camponeses que caminhavam quilômetros em busca de água salgada para cozinhar, já que o sal era muito caro por causa dos impostos. Nesses encontros furtivos, distribuíam panfletos e pequenos folhetins que os camponeses liam com dificuldade, mas com a avidez própria dos explorados.

De fato, essa enorme massa de camponeses ignorantes não era proprietária da terra, mas contadini: famílias que moravam onde trabalhavam, mas eram semi-escravas de fidalgos que levavam quase todo o produto do seu suor, deixando-lhes apenas as migalhas necessárias para que continuassem vivos e, portanto, continuassem a suar.