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A demora do livro, a demora do idioma

Parêntese #323

A demora do livro, a demora do idioma
Imagem: Reprodução / canal Conversations chez Lapérouse no YouTube

É bom irmos tratando de falar bem de livros. Não que isso seja uma urgência recente, já é bem sabido que as gerações nascidas depois de 2004, início da era das redes sociais, esses rebentos do scrolling já chegam muito distantes da maneira de construção subjetiva, afetiva, cognitiva que os livros físicos, impressos, proporcionaram a quem veio antes. Diante disso, talvez não seja nem questão de falar bem do livro em si, mas de elogiar a demora que ele nos exige – ou melhor, nos dá. 

Acabo de assistir a um episódio de Conversations chez Lapérouse (Conversas no Lapérouse), um videocast apresentado pelo escritor Frédéric Beigbeder, sendo o Lapérouse um lendário restaurante parisiense que ocupa uma antiga mansão aristocrata do final do reinado de Louis XIV. Para se ter uma ideia, em meados do século XIX o espaço passou a ser frequentado por nomes como George Sand, Victor Hugo, Charles Baudelaire e Guy de Maupassant, entre outros. Pois é sobre uma das mesas do Lapérouse, entre paredes exuberantes, que Frédéric Beigbeder dispõe de dois microfones Shure 7M7B, o mais caro, o auge da captação Hi-Fi, para receber convidados e convidadas do mundo da literatura. O episódio a que me refiro entrevista o monsieur Antoine Compagnon, um dos mais importantes teóricos de estudos literários nos séculos XX e XXI, presença confirmada nas bibliografias de graduações e pós-graduações da área em qualquer lugar do mundo. O cara, ainda jovem, já foi até citado por Roland Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso.

Nascido em 1950, Compagnon diz, a certo ponto da conversa, que é uma pessoa muito curiosa e sempre teve facilidade com a tecnologia, afirmando que consulta IA o tempo inteiro. Mas deixa bem evidente: a IA não lê, ela calcula. Isso foi em resposta a Beigbeder quando perguntado sobre o que a IA não conseguiria fazer que o ser humano consegue. Uma bela resposta.

Parêntese: quase desnecessário observar que isso não é um ataque ao pessoal das Exatas, não há nada de mal no cálculo, o próprio professor Compagnon tem percurso na Engenharia.