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O rock gaúcho – Parte V

Parêntese #323

O rock gaúcho – Parte V
Luis Vagner Guitarreiro. Foto: Edu de Ferrari

Luis Vagner entrou no século XXI morando em São Paulo, chamado de mestre pelos artistas de reggae, mas meio esquecido do público. 

E foi pela sua Porto Alegre que se recomeçou a falar nele. Em 1998 a banda gaúcha Papas da Língua explode (regionalmente) com seu segundo CD, Xalalá. Nele, entre outros hits, está uma versão de Como. Três anos depois, a também gaúcha Video Hits, em seu único disco, regrava Sílvia 20 Horas Domingo. Quase ninguém liga a canção a seu compositor, Vagner, mas sim a seu intérprete, Ronnie Von. Mas nas internas o boca a boca vai acontecendo.

Só que aí, comendo pelas beiradas, vai surgindo o hype do samba-rock, graças à sua descoberta pela classe média branca do bairro paulista onde Vagner então morava: a Vila Madalena. 

Uma das bandas que rapidamente se destaca nessa cena (que não chega a ser massiva, mas se torna bastante significativa), é o Clube do Balanço, do paulistano Marco Mattoli. E eles chamam Vagner para participar de nada menos que quatro faixas de seu CD de estreia, Swing & Samba-Rock (2001). Começava ali uma amizade e parceria forte entre o Clube do Balanço e Vagner que, em 2007, os colocaria regravando juntos Como para o CD Eu Não Sou Cachorro, Mesmo - inspirado pelo livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo Cesar de Araújo.

Ainda neste comecinho de milênio essa “redescoberta” (e bota aspas nisso) do samba-rock é impulsionada pelo CD Samba Esporte Fino, do carioca Seu Jorge. 

Conta Mateus Berger, em seu livro Suingue, Samba-Rock e Balanço:

Era o re-boom do samba-rock chegando com tudo. Casa da Sogra e Brazilian Sound Machine, projetos do Tonho Crocco, nos bares de Porto Alegre. Clube do Balanço em São Paulo chegando com o disco Swing & Samba-Rock, e na biópsia do encarte tava lá o guitarreiro compositor em Saudades do Jackson do Pandeiro, parceria com o Bedeu, e em Segura a Nega, cantada por ele, pelo Mattoli e pelo Seu Jorge, que chegava naquele momento estourado no país com Carolina e recém-saído do Farofa Carioca. Além disso, tava lá o Guitarreiro cantando e guitarreando em Falso Amor, do Bedeu, e em Trilha Guitarreira, parceria dele com o Marco Mattoli.

Com essa retomada de interesse pelo gênero, Vagner consegue um contrato para lançar dois CDs na sequência pela Paradoxx. Os discos foram gravados em São Paulo, mas Vagner levou um craque gaúcho das teclas pretas: Marco Farias.

Brasil Afro Sulrealista (2001), de inéditas, alterna samba-rock, funks, balada romântica e muito reggae, com participação dos sopros de outra banda paulista dessa nascente cena: o Funk Como Le Gusta. Vagner está cantando e tocando guitarra (bases e solos) melhor que nunca. Como se não bastasse, assumiu o baixo no disco todo. 

Entre os pontos altos do repertório há um ska em parceria com Wando (!), Sabor Tropical; Negros do Sul, escrita por ele sobre em cima de um poema de Oliveira Silveira sobre as Charqueadas de Pelotas; e Rola na Ginga, que reproduz a levada única das tribos carnavalescas de Porto Alegre. 

Vagner, para o Gafieiras:

A falta de visibilidade dessa influência do afro-brasileiro do Sul na cultura brasileira sempre me preocupou muito. Por isso eu quis trabalhar com essa questão, fortificar essa presença. Eu acho que no decorrer desse processo de globalização, desses elementos de mídia muito forte, isto foi tolhido das novas gerações, e foi se distanciando do autoconhecimento das pessoas na nossa região. Isso é algo que sempre me preocupou e veio desembocar justamente nesse trabalho...

O outro disco se chama Swingante. Lançado poucos meses depois, em 2002, tem basicamente regravações de alguns dos seus melhores sambas-rock, com um poderoso trio de sopros emprestado da Orquestra Mantiqueira e uma banda base da pesada. Estão nele Guitarreiro, Só Que Deram Zero pro Bedeu, Abuzzy y Wzzy e Saudade de Jackson do Pandeiro (ambas parcerias com Bedeu).