Confira todos os textos da edição #323
- A demora do livro, a demora do idioma, por Augusto Darde
- O rock gaúcho – Parte V, por Arthur de Faria
- Um encontro fugaz entre o ser e o estar, por Horacio Dottori
- O que ainda precisamos ensinar, por Kétina Timboni
- Da criatividade ao cuidado: aprendizados de uma vida em movimento, por Marilice Costi
- Sobre o livro “Mundo Impossível”, de Mayara Floss, por Olga Garcia Falceto
- Marina Lima em Ópera Grunkie, por Luciano Mello
- Entre o mundo e eu – Capítulo III, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso – Capítulo III, por Gonçalo Ferraz
- Porto Alegre, 1912-14: Os pinta-monos da revista Kodak, por Arnoldo Doberstein
No início do século XX, parcela dos porto-alegrenses aspirava se atualizar com o mundanismo satírico das revistas de variedades, como no Rio de Janeiro. Era uma espécie de modernidade enviesada, porque por aqui não eram poucos os que cultivavam a formação campesina do RS, suspiravam pelo passadismo “virtuoso e puro” dos tempos da monarquia, ou não tinham nem como pagar por tal tipo de publicação.
Foi neste contexto que, em setembro de 1912, surgiu em Porto Alegre a revista Kodak, precedida de outras que não se sustentaram. Tinha como base editorial reportagens fotográficas que cobriam desde encontros políticos, sociais e religiosos, manobras militares, acidentes, sinistros até, com a devida ênfase, escândalos e controvérsias de toda a ordem. O tempero da sátira, da crítica e da observação maliciosa, que a fotografia nem sempre conseguia alcançar, ficava por conta dos cronistas do cotidiano e da sociedade e, principalmente, dos artistas gráficos, que se apresentavam como seus pinta-monos.
Os principais pinta-monos da revista Kodak – Representações
Giuseppe Gaudenzi, o Giga, talvez tenha sido o mais bem estabelecido dos pinta-monos da Kodak (ver Parênteses 14.03.2026). Entre setembro de 1912 e junho de1913, ilustrou diversas capas da revista, oscilando no tratamento conforme a distância dos fatos. A nível nacional esculachava o presidente Hermes da Fonseca, borrifava os superpoderes de Pinheiro Machado, e denunciava a ganância dos sindicatos norte-americanos na partilha do Acre (Fig. 1 – esquerda). A nível estadual aliviava bem direitinho. Quase solenizando, por exemplo, a reeleição de Borges (Fig. 1 – centro), ou as ações pró-educação do deputado federal João Simplício (Fig. 2 – direita). Nas páginas internas, satirizou a falsidade das aparências (Fig. 2 – esquerda), e capitalizou com o momentoso caso do resgate da menina Leonor, raptada pelo agitador sindical Carlos Cavaco (Fig. 2 – direita).