Confira todos os textos da edição #323
- A demora do livro, a demora do idioma, por Augusto Darde
- O rock gaúcho – Parte V, por Arthur de Faria
- Um encontro fugaz entre o ser e o estar, por Horacio Dottori
- O que ainda precisamos ensinar, por Kétina Timboni
- Da criatividade ao cuidado: aprendizados de uma vida em movimento, por Marilice Costi
- Sobre o livro “Mundo Impossível”, de Mayara Floss, por Olga Garcia Falceto
- Marina Lima em Ópera Grunkie, por Luciano Mello
- Entre o mundo e eu – Capítulo III, por Marlon Pires Ramos
- Cordel do Corte Raso – Capítulo III, por Gonçalo Ferraz
- Porto Alegre, 1912-14: Os pinta-monos da revista Kodak, por Arnoldo Doberstein
A cidade acordou com um silêncio estranho, desses que não vêm da ausência de som, mas do excesso de realidade. Em Araranguá, Santa Catarina, na mesma avenida da delegacia da mulher (ironia que não devia existir) o chão guardou mais uma história que ninguém queria contar, mas que insiste em se repetir: uma tentativa de feminicídio.
Uma mãe. Uma vida inteira dentro dela. Planos, medos pequenos, alegrias simples, talvez um café apressado de manhã, talvez mensagens não respondidas. E então, de repente, a violência rasga tudo: não só a pele, mas o tecido invisível que sustenta o que chamamos de convivência.
E não foi suficiente para intimidar o criminoso. Essa é a frase que ecoa, dura, impossível de aceitar. Não foi suficiente. Nem a proximidade da lei, nem o símbolo de proteção, nem o fato de que alguém ali poderia ver, ouvir, intervir. Como se nada bastasse. Como se, para alguns homens, o mundo inteiro fosse apenas cenário para a sua própria vontade. E é aí que dói mais fundo.
Existem homens, muitos ainda, que não se arrependem. Que não hesitam. Que carregam dentro de si uma certeza perversa: a de que a mulher merece. Merece o golpe, o silenciamento. Homens que cresceram aprendendo que a dor feminina é menor, que o corpo da mulher é território disponível, que o “não” pode ser ignorado, reinterpretado.
Homens que nunca foram ensinados a se responsabilizar. Homens que confundem poder com direito, insistência com amor, controle com cuidado. E assim, criam justificativas frágeis para atos irreparáveis: “Ela mereceu.” “Ela que pediu.” E, não. Ela não pediu.