Confira todos os textos da edição #302
Florestania – Uma conversa no coração da Amazônia, por Natália Jung
Rodrigo Simon de Moraes: "As mais interessantes experiências literárias se apresentam como problema", por Luís Augusto Fischer
Ruy Castro: "Nunca tinha me ocorrido tratar da Guerra", por Luís Augusto Fischer
O Chico letrista de excelência, por Luís Augusto Fischer
Ecos da Terra – Rio Bonito do Iguaçu, por Alê Bruny
O eterno retorno da enchente, por Tiago Segabinazzi
Proust-à-porter: Castas, por Claudia Laitano
As invasões bárbaras, por José Roberto Iglesias
Vento dando pra ver, por Augusto Darde
Diário da guerra do sono: Capítulo II – Primeira batalha, por Cristiano Fretta
Jornalista, biógrafo, ficcionista e membro da Academia Brasileira de Letras, Ruy Castro publicou em 2019 Metrópole à Beira Mar, O carnaval da guerra e da gripe, em 2020, e em 2025 se voltou à Segunda Guerra Mundial e os seus efeitos no Brasil, com Trincheira Tropical. Este último livro é assunto da conversa abaixo, mediada pelo editor da Parêntese Luís Augusto Fischer. Nela o escritor explica o processo que motivou a criação da obra, e comenta aspectos particulares, como a presença de figuras conhecidas no contexto bélico do século passado.
Luís Augusto Fischer – De onde saiu a ideia (e talvez a necessidade) de pesquisar para escrever Trincheira tropical - A Segunda Guerra Mundial no Rio? Já tinha te ocorrido antes?
Ruy Castro – Não, nunca tinha me ocorrido tratar da guerra. Mas, há alguns anos, observei que, quando se tratava do Brasil na Segunda Guerra, nunca se falava do contrário, que era a Segunda Guerra no Brasil — exceto sobre a colônia alemã no sul, a imigração italiana e japonesa no sudeste e as bases americanas no nordeste. E o Rio, que era a Capital Federal, a única metrópole do país (1,5 milhão de habitantes), a porta de entrada internacional (pelo mar, não havia aviação comercial), o centro diplomático, o centro militar, a meca dos refugiados importantes, dos espiões, etc.? Vi logo as possibilidades e me entreguei ao assunto por cinco anos, todas as noites, enquanto durante o dia cuidava dos outros livros que publiquei no período. No sexto ano, no entanto, não quis saber de mais nada. Passei todo 2024 e começo de 2025 escrevendo e costurando aquelas histórias incríveis.
Luís Augusto Fischer – A pesquisa, como dá pra ver ao ler, impressiona pelo volume e pelo detalhe. Houve embaraços no caminho? Podes contar algum, como curiosidade?
Ruy Castro – O único e grande embaraço era: onde buscar as informações? Não havia um livro sobre o assunto, que pudesse servir como referência. O jeito foi mergulhar em centenas de livros que, esperava eu, tivessem alguma informação sobre o que acontecera no Rio naquele período, 1935-1945, POR CAUSA da guerra. Fui achá-las em livros de memórias [de diplomatas, políticos, militares, jornalistas, escritores, até de senhoras da sociedade carioca], histórias do Exército e da diplomacia brasileira, além de documentos achados em leilões, a farta literatura original integralista e comunista do período e a imprensa de então, com 17 jornais diários... Já estou com saudade de cada minuto investido nessa busca!
Luís Augusto Fischer – O livro repassa as posições políticas assumidas por figuras graúdas (e miúdas também) da época, sem poupar o que talvez pudesse ser entendido como coisas vergonhosas — especialmente a adesão de tantos ao fascismo nacional, ao Integralismo, mas também ao comunismo. Alguma dessas posições, ou das histórias pessoais vinculadas, te surpreendeu?
Ruy Castro – Sim, várias. Muitos que, depois, se tornaram baluartes da democracia, eram integralistas roxos. Não me senti na obrigação de livrar-lhes a barra ["Vinte anos depois, seriam..."] porque isso não me competia. O livro se passa entre 1935 e 1945, e o que me interessava era o que eles tinham feito entre aqueles anos. Se, depois, mudaram de lado, o problema era deles. Além disso, só mudaram de lado, mas a cabeça continuou a mesma: nacionalistas, intolerantes, sectários. E, o mais importante: continuaram em turma, nunca se dispersaram... Veja como você vai encontrá-los juntos em vários organismos e instituições dos anos 50 e 60...
Luís Augusto Fischer – Qual tua visão dos pracinhas? Com a produção da reportagem e a redação do livro, ela se modificou?
Ruy Castro – Como a maioria de nós, eu sabia muito pouco dos pracinhas. Mas, pela quantidade de livros de generais e comandantes sobre o assunto, e muito pouco de autoria dos próprios pracinhas, já desconfiava de que a história estava incompleta. Na investigação, descobri que nenhum general [e mesmo nenhum correspondente de guerra] esteve a menos de 5 quilômetros das batalhas. Como seria estar lá na frente, a 20 graus abaixo de zero, mal agasalhados, subindo um morro e tendo alemães atirando neles de cima para baixo? E tive a sorte de descobrir, em leilões e outras fontes, material original deles, com os relatos que eles próprios queriam esquecer.
Luís Augusto Fischer – E a tua visão do Getúlio no processo envolvendo a Segunda Guerra: como tu vês hoje? Essa percepção mudou com a pesquisa?
Ruy Castro – Não, nunca gostei de Getúlio. Meu pai, nascido em 1910, sempre me contou dos horrores do Estado Novo, 1937-45, como prisões, torturas e assassinatos. Ele nunca perdoou Getúlio e, como ele, descobri que outros que tinham vivido aquela época tinham feito o mesmo. O que Getúlio pode ter feito entre 1951 e 1954 não apaga o seu passado. Seria como reabilitar o Médici se ele tivesse ficado bacana a partir de 1980.