
Confira todos os textos da edição #333
- Pelé e Tostão, por Antônio Vicente Martins
- A copa que eu vivi, por Júnior Maicá
- Quando um embaixador argentino chorou a morte de Pelé, por Eduardo Brigidi
- Na Copa do Mundo, um Grenal de goleiros, por Valesca de Assis
- Lendas e causos das velhas Missões, por Artur Barcelos
- O rock gaúcho – Capítulo XIV, por Arthur de Faria
- Visão de futuro, por Paulo Damin
- Asperezas de Minuano, por Juremir Machado da Silva
- Sussuarana – Capítulo III, por Alice Elnecave Xavier
- Cordel do Corte Raso – Capítulo 12, por Gonçalo Ferraz
- Outras luzes na escuridão, por Helena Terra
Duas das minhas mais persistentes lembranças têm o mesmo nome: minuano. O vento e o trem. O vento minuano varre os campos da fronteira oeste do Rio Grande no inverno com uma aspereza que mais parece uma tragada de sal. Guri, de calças curtas, nas coxilhas de Palomas, eu sentia o minuano como um inimigo.
Até que, mais tarde, andando pelo mundo e experimentando outros ventos, comecei a sentir saudades de sua força. Foi assim, no sul da França, açoitado pelo mistral. Eu pensava no minuano.
O trem anunciava-se na distância por algum barulho nos trilhos que os animais ouviam primeiro. Quando passava junto à nossa casinha, colada na via férrea, era um traço vermelho cortando a leveza do ar, uma massa de ferro e madeira que se volatizava na passagem deixando um rastro veloz.
O vento tinha cheiro. Era um aroma de umidade vencida na secura do ar em movimento. Eu o sentia queimando a boca e as orelhas, entrando pelas narinas como um fogo. Até hoje, quando o vento me entra forte pelo nariz, eu me transporto para os campos gelados da minha infância na campanha.
Decidi que traduziria esse vento e esse trem em literatura. Desde as minhas primeiras tentativas, em teatro amador, eu me chocaria com o esteticamente dominante. Numa disputa de peça de adolescentes, meu rival amparava-se na sofisticação de Fernando Pessoa, enquanto meu texto se chamava Os rebeldes e tinha como trilha musical Leno e Lilian dizendo “eu sou rebelde por que o mundo quis assim...” Quando publiquei meu primeiro romance, um crítico literário da aldeia me disse que o analisaria se eu o pagasse. Um escritor pacato queria que eu fosse vê-lo e ouvir conselhos.
Como não fui, percebeu que era melhor esquecer. Outro, tentou me tutelar, algo que muitos quiserem fazer e nenhum conseguiu: queria me dizer como escrever, o que ler, do que falar. Um ativista político me deu uma carona e uma sugestão: “Por que não escreves como a fulana...” Nunca dei respostas ásperas como o minuano. Como o trem, deixei passar em velocidade.
Acho que fui moldado pelos minuanos, o vento e o trem. Fiquei com esse jeito volátil, essa pegada transversal, essa mania de não ser frontal, salvo quando a guerra já foi declarada, essa pressa de fugir das tutelas, essa vontade inquebrantável de ser quem eu sou, essa tendência a andar na contramão, essa incapacidade de vestir o uniforme, mesmo o mais na moda, o mais vistoso, essa vontade de fazer ouvir a minha voz fora de tom, essa convicção de que diferença não é uma palavra para designar apenas o distante, mas um sopro de vento fresco sobre as relações mais próximas.
Eu tinha medo do trem, de ser arrastado por ele na sua passagem vibrante junto ao nosso pátio, onde meus brinquedos eram sabugos de milho, e pavor do vento, que me machucava com suas lufadas rudes e melancólicas. Agora, lembro dos minuanos como incitações à independência selvagem. Outro dia, no alto de uma rua, senti o vento me dobrar. Lembrei do minuano da minha adolescência e quis pegar o trem para o amanhã que cantaria amores.